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O Segredo

Por Professor Felipe Aquino

Circula na Internet e também agora em filme e livro, O SEGREDO, que pretende apresentar à humanidade uma técnica para resolver todos os problemas do ser humano e dar-lhe uma vida de rei milionário e super famoso. É tudo o que o homem moderno mais deseja, por isso, o tal “Segredo” ganha mais adeptos a cada dia, especialmente entre os que não estão acostumados  a digerir as filosofias entre de engoli-las.

Li alguma coisa sobre o tal “Segredo” na Internet; mas o suficiente para ter uma opinião formada. Pretensamente querem basear-se na Física clássica de Isaac Newton, usando a lei da gravitação universal da atração dos corpos, para justificar a atração de tudo o que se desejar: noticias, dinheiro, sucesso, fama e tudo o mais. Da mesma forma os mentores do Segredo querem justificar o mesmo com a Física Quântica; porém não apresentam uma prova sequer do que afirmam.

Se o tal Segredo fosse verdadeiro ninguém mais precisaria se preocupar em levantar cedo para trabalhar pesado, ou estudar muito para ter um lugar ao sol.

Fui professor universitário durante 35 anos, lecionei Física nesses anos, fiz mestrado e doutorado em Mecânica (UNIFEI, UNESP, ITA,), e não vejo a menor lógica em se justificar o tal Segredo com estas leis. Me parece uma mera fantasia, sem fundamentos científicos. Se fosse verdade, acabariam todos os problemas da humanidade.

Ninguém nega que o pensamento positivo é importante, pois predispõe a pessoa a lutar com mais motivação e vontade para vencer; mas isto não quer dizer que ela vá resolver todos os seus problemas. O que desconfio é que esta “técnica” tem por objetivo, sutilmente, eliminar a crença em Deus; como a meditação transcendental, o poder da mente, e coisas semelhantes, especialmente para conquistar os universitários e afastá-los de Deus. Vejo ai um cheiro de Nova Era, que promete resolver todos os problemas do mundo e do homem, mas com um falso Messias e uma falsa religião, onde o homem substitui Deus.

Promete-se resolver todos os problemas, conquistar todas as riquezas, prazeres, poder e tudo o mais; ora, isto não se coaduna com a fé católica que manda sermos humildes, discretos e comedidos. Jesus não prometeu nada disso a seus discípulos. Ao contrário, Ele disse: “quem quiser ser meu discípulo tome a sua cruz a cada dia e me siga” (Lc 9,23).

Portanto, bastam poucas palavras e uma rápida análise para ver que o tal Segredo não se coaduna com a fé católica.

O longo texto que li na Internet diz que:
“O Segredo foi conhecido e usado ao longo do Tempo. Desde o Egito Antigo… à Babilônia, o Segredo viajava ao longo da História. Platão e seus seguidores conheciam o Segredo. Mas o Segredo foi suprimido por questões religiosas. Ocultaram-no. Poucos o conheceram desde então e tentaram revelá-lo subliminarmente. Alguns foram Leonardo Da Vince, Francis Bacon, Shakespeare, Newton, Mozart, Victor Hugo, Papus, Blavatsky, Besant, Leadbeater…”.

Mas o texto não traz qualquer comprovação bibliográfica destas afirmações. E continua dizendo que:
“Pouco a pouco a religião perdeu a autoridade para explicar o Universo. Em 1859 o britânico Charles Darwin lançou a sua teoria sobre a evolução das espécies, contra a idéia da criação divina. E o fosso entre a religião e a Ciência tornou-se intransponível. A Humanidade mudou e não mais teme as imposições e os castigos religiosos. A Ciência sobrepôs-se. A Ciência avançou tanto que não há dificuldade em se construírem naves espaciais, enviar pessoas à Lua e prever-se com a precisão de fração de segundo a sua aterrisagem. Em face do progresso da Ciência, o Segredo está sendo disseminado! Esse Segredo dá-lhe tudo o que você desejar: saúde, amor, abundância, felicidade. Você pode conseguir o que quiser quando aprender a aplicá-lo na sua vida diária.”

É fácil ver neste texto a mesma lógica dos racionalistas e iluministas  dos séculos XVII a XIX que queriam destruir o catolicismo, jogando a Ciência contra a fé; desprezando Deus e a Igreja. É uma comida requentada.

O tal Segredo promete resolver tudo: cura física, cura mental, cura de relacionamentos, milagres financeiros, Você pode ser, ter, fazer qualquer coisa que quiser. Ele pode lhe dar Saúde, Harmonia, Paz, Amor, Doçura, Tranqüilidade. Você pode ser milionário e ter todo o sucesso do mundo.

Ora, eu pergunto, onde haverá dinheiro e bens para todos serem milionários no mundo?

Outra frase marcante do texto é esta: “Todos nós funcionamos com um poder infinito… Todo poder vem de dentro e está, portanto,

sob o nosso controle.” Ora, então somos deuses e não homens! Se temos um poder “infinito” então somos deuses; e aí caímos no panteísmo que não se coaduna com a fé católica.

O texto tenta ainda colocar grandes personagens da humanidade como beneficiados pelo Segredo da Atração: Winston Churchill, Albert Einstein, Madre Teresa de Calcutá, Alexander Graham Bell, etc, mas não dá nenhuma prova clara dessas afirmações.

A lei da Atração sugere que “eu me basto”, que tenho força e autonomia para fazer o que quiser sozinho. Muitos gostariam disso; mas não é a vontade de Deus. Ele nos supre e assiste pela sua Divina Providência e nos ama com amor eterno que tudo nos providencia contando com o nosso trabalho.

O Engano do Segredo

Por: Pe. Inácio Jose do Vale
Pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo
Professor de História da Igreja
Faculdade de teologia de Volta Redonda
e-mail: pe.inaciojose.osbm@hotmail.com

O livro “O Segredo” é um best-seller, no topo da lista do New York Times, tendo vendido rapidamente seis milhões de cópias. O DVD do mesmo título foi adquirido por mais de dois milhões de pessoas. A base teórica do Segredo, ou seja, a falácia do livro da australiana Rhonda Byrne é a lei da atração. Nada mais do que a ancestral noção de que as pessoas são capazes de atrair para si mesmas coisas boas ou ruins dependendo de sua atitude mental. Diz Rhonda: “Se você visualizar na mente aquilo que deseja e fizer disso seu pensamento dominante, atrairá o que quer para a sua vida” (1).

“O Segredo nada tem de segredo, mas, sim, de tolice, hinduísmo, xamanismo e Nova Era reciclados”, afirma o escritor americano e especialista em religiões, seitas e heresias Dave Hunt (2). Já dizia a Sentença Latina: “Vulgus vult décipi”– “O povo quer ser enganado”. É muito fácil enganar as pessoas com maravilhosas histórias, belos testemunhos de riqueza, saúde e vitória no amor, promessas mirabolantes, inimigos derrotados e um futuro só de bênçãos. É claro! Todo esse teatro de sucesso alucina a mente despreparada e domina profundamente o ser das pessoas mais do que a dura e cruel realidade da vida e a verdade que exige caráter e honestidade pela dignidade da pessoa humana. O jornalista americano Steve Salerno questiona as soluções propostas pelos livros de auto-ajuda. O título de seu libelo brinca com isso: SHAM é a sigla que designa o mercado de auto-ajuda nos Estados Unidos, mas também é a palavra inglesa para algo que é falso ou enganoso. Para Salerno, cada novo guru nada mais faz que reciclar as mesmíssimas fórmulas.

A ILUSÃO DA AUTO-AJUDA

A literatura de auto-ajuda é uma grande armadilha. “Uma das mais gigantescas mentiras é a sua afirmação: Você cria a sua própria realidade com a sua mente”, diz Dave Hunt. As palestras de auto-ajuda têm notas repetidas demais como: “pense positivo, use seu poder mental, visualize o seu objeto de desejo, aquilo que esta na sua mente é o que você atrai para si, determine a sua bênção, mude de mentalidade para ser vitorioso, declare que você já tomou posse da bênção”. O sermão que “você pode tudo”, ou seja, pela fé, tudo você consegue, basta elevar a auto-estima para você chegar aonde deseja e tudo que você pensar e falar vai alcançar. Tais discursos são destituídos de fundamento teológico e científico, mesmo assim, enganadores da auto-ajuda vão explorando os incautos orgulhosamente. Os especialistas em auto-ajuda corporativa movimentam um mercado estimado em R$ 6 milhões por mês no país (3).

A literatura de auto-ajuda é um produto moderno do mercado que a sociedade consume enganosamente. A ganância do ser humano o individualismo, a busca do sucesso a qualquer preço e a decadência intelectual faz com que os sofistas, os espertos, os mestres, os gurus, os iluminados, mentores, videntes e profetas se enriqueçam em cima do sofrimento, da dor e da ignorância das pessoas. Isso é triste, muito triste. Que horror!

O psiquiatra Roberto Shinyashiki denuncia os “modelos de sucesso” propagados pela auto-ajuda. Ele coloca em dúvida as credenciais dos gurus. “A auto-ajuda é exercida por muitas pessoas sem formação, que fazem psicologia barata”. Questiona ainda a eficácia desses livros. “Vende-se a mesma solução para todos os problemas: se você tiver garra, vai obter sucesso. É uma ilusão que só gera angústia nas pessoas”, diz Shinyashiki (4).

“O SEGREDO” NO BRASIL

“Não confie em pranchas podres”, escreveu o grande dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare. Em Provérbios 14,15 está escrito: “O ingênuo acredita em tudo o que se diz”. Tem muita gente pra lá de ingênua que caminha cegamente em tudo que ler, ouve e ensinos fraudulentos. Acreditar radicalmente em qualquer ensino sem fundamento e sem senso crítico – assim como pisar em pranchas podres, ou “O Segredo” – pode levar a danos irreparáveis.

A literatura de auto-ajuda é um campo minado que tem dilacerado muitas almas ingênuas. O livro “O Segredo”, há 32 semanas na lista dos mais vendidos no Brasil, é muito mais que apenas o best-seller do ano. Baseado no documentário de mesmo nome da produtora de TV australiana Rhonda Byrne, o título é um fenômeno que ultrapassou o nicho da auto-ajuda e tem inspirado variações sobre o mesmo tema como “O Segredo por Ana Maria Braga”, “O Segredo de Deus”, e “O Segredo da Prosperidade”. A própria Rhonda acaba de lançar um filhote da galinha de ovos de ouro: “The secret gratitude book”. O seu livro “O Segredo” em sua terceira edição, já vendeu 30 mil exemplares no Brasil (5).

Para escrever “O Segredo” Rhonda Byrne se inspirou em várias obras do ramo principalmente no Livro de 1910, “A Ciência de Ficar Rico”, de Wallace D. Wattlers. Wattlers foi um diligente estudioso do Segredo durante a maior parte de sua breve existência, outro fundador do movimento do Novo Pensamento. Seu livro mais famoso foi “A Ciência de Ficar Rico”, contudo, ele viveu a maior parte de sua vida na pobreza. Essa sua maior realização foi publicada em 1910. Wattlers faleceu em 1911, aos 51 anos de idade. Será que ele não desejava viver mais tempo para ver o sucesso do seu livro e para poder escrever mais sobre as maravilhas benéficas do Segredo, embora este tenha falhado com ele? Mesmo assim, Wattlers não pôde acrescentar um minuto sequer à sua vida. Para ele, um dos principais proponentes, o Segredo não funcionou.

MESMÍSSIMAS “O Segredo recicla achados de outros livros de auto-ajuda e dilui conceitos da psicanálise, da economia e da religião”, escreve o jornalista da VEJA, Jerônimo Teixeira (6). Alguém já disse: “Nada se cria, tudo se copia”.

“O Segredo”, a Nova Era e a literatura de auto-ajuda, vão buscar no budismo, hinduísmo, confucionismo e um todo misticismo oriental a sua base.

Por essas águas navegou o poeta e ensaísta americano Ralph Waldo Emerson. Este é considerado o mestre dos mestres e o precursor da auto-ajuda com o livro “Autoconfiança”, de 1841. James Allen, um empregado de fábrica, inglês, em 1902 lança “O Homem É Aquilo Que Ele Pensa, livro que já trazia a idéia central de “O Segredo”. Dizia ele: “Só precisamos nos acertar para descobrir que o universo está certo”.

Dale Carnegie publica em 1936, em plena Grande Depressão econômica americana o livro: “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”. Ele ensinava: “Acredite que você pode mudar sua vida e isso se concretizará”.

O pastor metodista americano Norman Vicent Peale, autor do conhecido livro “O Poder do Pensamento Positivo”, publicado em 1952. O tripé do livro é: “Ore, imagine e realize”.

Atualmente, quem está navegando muito bem é o médico indiano radicado nos Estados Unidos, Deepak Chopra. Este se tornou um mestre do “Segredo” conhecido internacionalmente. É o guru da obra: “As Sete Leis Espirituais do Sucesso”.

No campo protestante segundo Dave Hunt, o pastor David (Paul) Yonggi Cho tem ensinado e praticado há anos o ocultismo do “O Segredo”. Diz mais: “Numerosos psicólogos cristãos e líderes carismáticos seguem a mesma fórmula”.

Cho é o pastor da maior igreja evangélica do mundo que fica na Coréia do Sul. “O pastor Cho afirma que o Espírito Santo lhe disse que ele devia visualizar um quadro claro daquilo que estava pedindo, ou então a sua oração não seria atendida” escreve Dave Hunt. Em seu livro “Mude de Mentalidade”, Cho escreve: “Se você muda sua forma de pensar, sua maneira de viver também pode mudar”.

CONCLUSÃO

Tudo já foi dito e escrito, não há nada de novo ou de segredo. Apenas repetições. Muda o autor, mas o conteúdo é o mesmo. Muda o tempo, mas continua o engano com eficácia tecnológica. Muda o orador, mas a oratória é a mesma.

A desgraça é que essa falácia leva muita gente a andar em pranchas podres. O ingênuo cai como patinho feio na armadilha.

Pseudociência, psicanálise, psicologia de R$ 1,99, esoterismo, ocultismo, Nova Era e falsa interpretação da Sagrada Escritura, como: teologia da prosperidade, onda de títulos de apóstolos, determinação, visualização com fé e dons carismáticos, tem gerado toda uma indústria de auto-ajuda capitalista e uma arte finíssima do engano infernal.

Os líderes desse comércio estão cada vez mais ricos em cima dos desesperados, perturbados, depressivos, gananciosos e ignorantes da Bíblia Sagrada.

De um lado ganha a indústria farmacêutica e do outro, toda uma indústria da auto-ajuda: editoras, livros, revistas, filmes, novelas, palestrantes e gurus.

O ingênuo gasta em duas frentes: nos cursos e palestras e nas farmácias. Realmente, devemos ter misericórdia dos enganados!

Vamos ensinar a verdade que liberta: Jesus Cristo.
“Vinde a mim todos o que estais cansados e sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso” (Mt 11,28).

REFERÊNCIAS

(1) Veja, 04/04/2007, p.78.
(2) Chamada da Meia Noite, 10/2007, p.15.
(3) Revista O Globo, 09/12/2007, p.36.
(4) Veja, 09/11/2005, p.144.
(5) Revista O Globo, 16/12/2007, p.24.
(6) Veja, 04/04/2007, p.82.
(7) Chamada da Meia Noite, Outubro de 2007, pp. 18 e 19.